Os portugueses não estavam melhor, mas agora estão, e o país também.

Em Fevereiro de 2014, Luís Montegenro na tentativa de justificar as opções políticas do seu governo disse “A vida das pessoas não está melhor mas a do País está muito melhor“. Poderia tentar focar na capacidade de distinguir o país dos portugueses revela uma capacidade imbatível de contentorizar, faculdade que os portugueses não conseguem atingir, eu incluindo, ou ainda em tentar perceber como poderia o país estar melhor, apesar de, quando comparado com o dia em que o governo iniciou funções, indicadores como a dívida pública, o emprego, a atividade económica ou a confiança dos empresários e consumidores, todos eles estavam em muito pior estado. O PIB também, mas os erros de cálculo do PIB é provavelmente uma das causas da crise, nomeadamente dar cobertura a monstruosidades como a frase de Luís Montenegro.

Ora, as estatísticas mesmo quando correctamente calculadas, podem ser a justificação para vis mentiras, bastando para tal que sejam descontextualizadas. Quando mal calculadas, são criminosas, na sua capacidade de enganar o eleitorado, mesmo o eleitorado informado, essa espécie em vias de extinção.

Como medir como vivem as pessoas: Rendimento Disponível Ajustado

Aquele que é para mim o melhor indicador sobre a saúde económica de um país é conhecido por Rendimento Disponível Ajustado (RDA). Este indicador calcula o montante que as famílias dispõem, depois de pagos todas as taxas e impostos, e recebidas as ajudas sociais. Numa descrição mais simples, corresponde àquilo que as famílias têm na conta bancária no final do mês.

Este indicador é sensível a eventos tais como desemprego, alterações nos impostos, benefícios sociais (como o subsídio de semprego) ou aumentos nas remunerações. Pode então corresponder ao indicador da “economia real”, por oposição à economia virtual que frequentemente influência o PIB (lembrar o trimestre em que a economia irlandesa subiu 26% sem criar um único posto de trabalho…?).

Ora, como se comportou o Rendimento Disponível Ajustado nos últimos anos? Assim:

Os números são estarrecedores. No final do XIX governo, o Rendimento Disponível Ajustado estava ao mesmo nível de 2007. Em Fevereiro de 2014, quando Luís Montenegro preferiu tais palavras, as pessoas estavam precisamente a atravessar um dos momentos mais baixos, tendo os rendimentos recuado aos níveis não vistos desde 2006.

Esta redução do rendimento veio por via de todos os componentes: aumento dos impostos, redução dos salários e das ajudas sociais como o subsídio de desemprego.

É este o problema de indicadores abstratos como o PIB, e demonstrados como no caso irlandês, não é possível que um país esteja melhor, quando os seus habitantes não estão.