Como o emprego recém-criado se afasta do salário mínimo e da antiga política.

Há algo que incomoda especialmente: usar estatísticas para demonstrar um ponto de vista, mesmo que a contextualização essa estatística suporte precisamente o ponto de vista oposto. Esta técnica é bastante comum em tablóides e comentadores sem escrúpulos, e é uma das possíveis razões para o surgimento do populismo: os problemas são tão por demais evidentes que existem soluções fáceis para os mesmos…

Pois este é o caso da última entrevista a Pedro Passos Coelho, como este excerto demonstra (bastam os primeiros 20 segundos):

Ora, portanto, segundo Passos Coelho, quando em 2014 existiriam em Portugal menos de 400.000 pessoas a auferirem o ordenado mínimo, e neste momento seriam quase 1.000.000.

Ora vamos primeiros às estatísticas em si, segundo a Pordata:

Evolução do número de trabalhadores que recebem o ordenado mínimo

Segundo os números disponíveis na Pordata, com base em estatísticas publicadas pelo Ministério do Trabalho, o número de trabalhadores que recebem o ordenado mínimo duplicou entre 2006 e 2012, fixando-se em 457 mil. No entanto, o valor citado por Passos Coelho refere-se ao último ano completo do XIX governo: 2014. Nesse ano, o número de trabalhares com o ordenado mínimo já atingiu os 707 mil trabalhadores, e não os “menos de 400 mil” citado por Passos Coelho. No entanto é de notar que a subida de desse indicador nos anos de 2013 para 2014 não teve qualquer relação com o aumento do ordenado mínimo, pois este só ocorreu em 2015.

Trata-se então de uma “inverdade” que ninguém na comunicação social apontou.

No entanto, não é esta a maior falta de Passos Coelho. A maior falta é a tentativa de usar o indicador do número de trabalhadores com o ordenado mínimo com a economia e a saúde do mercado laboral, de forma totalmente descontextualizada. O típico mentir com estatísticas.

Mas vamos tentar contextualizar esse indicador nos anos mais recentes.

Evolução do rácio de trabalhadores com o salário mínimo

Uma das informações mais importantes é relativa ao próprio mercado de trabalho nos anos de 2014 e 2015. Seria natural que o número de trabalhadores com ordenado mínimo aumentasse com o aumento da força de trabalho, mantendo a mesma percentagem.

Mas não, não foi isso que aconteceu, a percentagem de trabalhadores a auferirem o ordenado mínimo aumentou entre 2013 e 2014, 12,% para 19,6%, isto sem que tivesse ocorrido um aumento do ordenado mínimo, e portanto os dois não estão relacionados.

No entanto a história não termina aqui….

Comments

  1. […] Em primeiro lugar temos os sectores onde o XIX teve um saldo positivo: educação (!!!), serviços sociais e as actividades de consultadoria e tecnologias de informação. Este é um dos pontos mais relevantes na transformação que o país sofreu: a mudança para um mercado de serviços, em detrimento de outras actividades com menor valor acrescentado, como a indústria transformadora. Este será provavelmente o efeito mais positivo. A outra face da moeda é no entanto o que vem associado a este movimento: grande parte destes novos empregos, ao contrário de serem de alto valor associados às tecnologias de ponta, vieram associados a baixos salários e contratos a prazo, como a restante totalidade dos empregos criados por esta altura, como se pode ver neste artigo sobre os ordenados dos empregos criados nesta época. […]