A evolução sectorial do mercado de emprego 2011-2017

A que sectores se deve a recente subida do emprego? Deve-se tudo ao turismo? Ou pelo menos qual é o papel do turismo na recuperação do desemprego? Houve outros sectores com ganhos significativos em emprego?

Este é o segundo artigo sobre a evolução do mercado de trabalho dos períodos troika e pós-troika. O primeiro versou sobre o emprego que aufere o ordenado mínimo antes e depois de 2015.

O INE anunciou recentemente que deixaria de publicar dados sectoriais da evolução do emprego, porque entente que os dados de um mercado tão pequeno como o português não oferece fiabilidade nos números para terem valores estatísticos. Fiáveis ou não (tendo em conta que por exemplo não é possível distinguir o emprego na restauração do emprego da hotelaria), ainda estão disponíveis no Eurostat para consulta, e pode ser usados, tendo em conta a possível falta de fiabilidade.

Nos últimos anos, o mercado de trabalho sofreu movimentos violentos, num volume que chegou a atingir cerca de 10% da força de trabalho por conta de outrem (3,8M de pessoas) num período de 5 anos. No entanto, essa variação variou consoante as àreas económicas, quer no seu movimento descendente como no movimento ascendente, e para algumas áreas económicas, não voltaram ao que eram.

Finalmente pretende-se responder a uma questão importante: qual é a área económica responsável pela recuperação do mercado de trabalho?

 

Antes de mais nada, vamos relembrar o período mais negro do desemprego, desde o terceiro trimestre de 2011 até ao pico do desemprego no primeiro trimestre de 2013.

 

Evolução do mercado de trabalho por sectores económicos desde a entrada em funções do XIX Governo até ao pico do valor de desemprego, no primeiro trimestre de 2013. Fonte: Eurostat

Nestes 18 meses foram destruídos cerca de 300.000 empregos, de forma bastante assimétrica relativamente ao sectores da economia. Se no sector da educação até se verificou um crescimento significativo do emprego, em 16.000 novas posições, em alguns sectores mal se notou o aumento do desemprego, pelo menos na óptica do número de empregos (já sobre a óptica dos vencimentos reais, o efeito do desemprego foi mais notório). Dentro das áreas onde não se notou grande efeito, temos os sectores da energia, tecnologias de informação ou logística, tendo todos apresentado variações inferiores a 10.000 empregos. No entanto, num conjunto específico de sectores, a crise abateu-se sem apelo nem agrado.

É de notar que dos sectores que mais empregos perderam, apenas o sector da indústria transformadora pode ser relacionado com a envolvente externa, nomeadamente com as exportações, e neste caso a perda foi de 85.000 empregos. No entanto, a grande quebra no emprego ocorreu nos sectores relacionados com o mercado interno, nomeadamente a construção, comércio e restauração, onde a soma destes 3 sectores atingiu os 180.000 empregos, correspondente a mais de 60% de toda a destruição de emprego.

É assim evidente que o aumento do desemprego teve essencialmente causas endógenas, relacionadas com a política económica seguida. Esta conclusão é da maior importância para perceber como caíram as receitas fiscais e da segurança social, e como ao mesmo tempo os custos da segurança social tiveram um aumento significativo.

O resultado do ciclo político

Depois do pico do primeiro trimestre de 2013, veio a recuperação. Nesta fase vamos apenas analisar o período entre 2011 e 2015, de forma a avaliar o resultado da globalidade do ciclo político, associado ao XIX governo.

 

Evolução do mercado de trabalho por sectores económicos desde a entrada em funções do XIX Governo até à entrada em funções do XXI Governo. Fonte: Eurostat

Os resultados são extremamente interesantes. Apesar de que o desemprego na sua globalidade, desceu de 2013 até 2015, essa descida não foi igual em todos os sectores, sendo que em alguns sectores o emprego continuou a reduzir.

Em primeiro lugar temos os sectores onde o XIX teve um saldo positivo: educação (!!!), serviços sociais e as actividades de consultadoria e tecnologias de informação. Este é um dos pontos mais relevantes na transformação que o país sofreu: a mudança para um mercado de serviços, em detrimento de outras actividades com menor valor acrescentado, como a indústria transformadora. Este será provavelmente o efeito mais positivo. A outra face da moeda é no entanto o que vem associado a este movimento: grande parte destes novos empregos, ao contrário de serem de alto valor associados às tecnologias de ponta, vieram associados a baixos salários e contratos a prazo, como a restante totalidade dos empregos criados por esta altura, como se pode ver neste artigo sobre os ordenados dos empregos criados nesta época.

As más notícias vêem de outros sectores, nomeadamente da construção e da restauração. No caso da construção, a quebra no emprego continuou até 2015, tendo sido perdidos adicionalmente 20.000 empregos. O saldo do emprego na construção foi então de 113 mil empregos perdidos no período.

Curiosamente, ouve ainda outro sector que continuou a perder empregos no momento em que a economia regressou ao crescimento: a hotelaria e restauração. Este valor é ainda mais interessante devido aos resultados muito positivos no turismo, de onde se podem obter algumas conclusões significativas: não só a quebra do consumo interno teve consequências significativas na restauração, como essa quebra continuou até 2015, sendo que o contributo que o turismo trouxe para o sector não chegou sequer para compensar a sangria contínua na restauração.