Quanto vale a Autoeuropa para o PIB ? 1% do PIB ? Não, 0.3%.

Com a greve na Autoeuropa, falou-se que poderia abandonar o país, levando consigo cerca de 1% do PIB e 3% das exportações. Mas qual é a realidade da Autoeuropa? Quanto é que realmente contribui para o país? O valor das exportações está correcto, mas o do PIB está brutalmente inflacionado.

A Autoeuropa foi dada como um dos mais importantes polos industriais do país, contribuindo para uma fracção muito significativa das exportações nacionais no ano em que abriu, chegando a ser responsável por 12% de todas as exportações nacionais em 1997. No entanto, nos 20 anos que passaram muita coisa mudou, mas uma pequena mentira subsistiu ao longo dos anos: a contribuição para o PIB.

Ainda hoje, se consultarmos a página da Autoeuropa podemos ver a seguinte tabela.

Os números publicados pela própria Autoeuropa são então deveras interessantes, e incluem o número de veículos fabricados, bem como o volume de negócios. A partir daqui vamos poder fazer os cálculos necessários.

Ora, alguns valores interesantes, e que servirão para enquadrar a Autoeuropa-

  • O preço médio de venda de cada veículo foi de 17.960€. Sendo essencialmente compostos por VW Scirocco e VW Sharan. Se compararmos os preços de venda ao público desses veículos, sem impostos, respectivamente de 22.807€ e 30.020,59€, podemos assumir com alguma confiança que a Autoeuropa encontra-se a operar a preço de custo. Todo o valor acrescentado fica entre a casa-mãe e os retalhistas.
  • A Autoeuropa afirma que é responsável por 3% do total das exportações nacionais. Esta informação é provavelmente verdadeira, mas também não nos diz muito. Para que esta informação seja útil é necessário ter também o impacto das importações.
  • O valor da incorporação nacional deixou de ser publicado, mas era em 2014 de 60%. Isto significa que pelo menos 40% do volume e negócios é usado em importações, sendo que dos restantes 60%, nada é conhecido.
  • No final da tabela aparece um valor muito interessante: GDP Impact 0.8%. Ora, uma análise muito rápida, permite-nos perceber que o valor de 1% veiculado pela comunicação social se trata afinal de um arredondamento. Mas de onde vem o valor original de 0.8%? Ora, o PIB em 2016 é estimado em 184.931 M€, e de facto se dividirmos o volume de negócios pelo PIB obtemos o valor de 0.82%. Mas isto não significa que a Autoeuropa valha 0.82% do PIB, pois a este valor temos de retirar as importações directas, que sabemos ser da ordem dos 40%. O impacto directo da Autoeuropa no PIB é então não 0,82%, mas uns muito mais baixos 0,49%.
  • Da incorporação nacional, os tais 60%, pouco se sabe. No entanto, sabe-se que poucas indústrias transformadoras conseguem produzir sem recurso a importações. Vamos então assumir, e este é um valor sem suporte factual, que as empresas portuguesas só importam 40% daquilo que vendem. Na realidade este valor é muito superior, mas serve para comparação. Então é necessário subtrair esse impacto nas importações dessas matérias primas. Feito isto, o impacto directo do PIB na Autoeuropa é então de 0,30% do PIB, um valor de grande respeito, mas ainda assim longe dos 1% veiculados.
  • Ainda sobre a incorporação nacional, onde é contabilizada a mão de obra, é necessário verificar se o custo da mão de obra é relevante. O salário médio da Autoeuropa em 2013 era de 1340€, aos quais a empresa tem de ainda pagar à segurança social. Assumindo que desde então os salários não sofreram aumentos significativos, pode-se então calcular que o custo dos salários corresponde apenas a 4,96% dos custos totais da empresa. De facto, uma subida de 10% dos salários apenas corresponderia a um aumento de custo de 0.5% dos custos totais da empresa. Não serão portanto os custos do trabalho que irão fazer a Euroeuropa ir para qualquer outra localização.
  • Só para terminar, também não é o custo da energia que corresponde a parte significativa da incorporação nacional, já que estes correspondem apenas a 0.58% dos custos totais.