Veículos electrificados conquistam a maioria do mercado

Os dados da ACAP já estão disponíveis, e o mês de agosto de 2026 marca um ponto de não retorno na história da indústria automóvel nacional. Impulsionada por um contexto macroeconómico de forte agravamento no preço dos combustíveis fósseis, causada pelas guerras e instabilidade internacional. A transição energética atingiu a sua massa crítica: pela primeira vez, mais de metade dos automóveis ligeiros vendidos num só mês são elétricos recarregáveis.

A análise detalhada dos dados do mercado automóvel revela não apenas um retrato excecional de agosto, mas o culminar de uma evolução estrutural que se foi desenhando desde 2020. Os consumidores, pressionados pela escalada da inflação energética, em particular na subida do preço do diesel, alteraram de forma definitiva o seu padrão de compra, relegando os motores térmicos tradicionais para uma posição manifestamente minoritária.

Durante os 31 dias de agosto de 2026, matricularam-se 16 535 veículos ligeiros no país. Deste universo, 50,77% (8 394 unidades) correspondem a automóveis com capacidade de ligação à rede elétrica, englobando os veículos 100% elétricos a bateria (BEV) e os híbridos plug-in (PHEV).

O grande protagonista deste marco é o segmento dos veículos puramente elétricos (BEV). Sozinhos, os modelos 100% elétricos registaram 5 914 unidades matriculadas, dominando o mercado com uma quota individual de 35,77%, o que corresponde agora à motorização preferida pelos Portugueses, e acima de qualquer outra motorização ou combustível. Isto significa que mais de um em cada três carros novos vendidos em agosto não emite qualquer gás de escape.

O papel da tecnologia Híbrida Plug-in (PHEV) foi o complemento vital para ultrapassar a barreira da maioria absoluta. Os PHEV somaram 2 480 unidades, garantindo 15,00% do mercado global (com clara preferência pela associação ao motor a gasolina, que representou 13,95% das vendas face ao residual 1,05% do gasóleo).

Se aos veículos recarregáveis (50,77%) somarmos os híbridos convencionais (HEV), que representaram 17,37% das matrículas em agosto, concluímos que 68,14% de todos os automóveis novos possuem agora um motor elétrico.

A Evolução desde Janeiro e a Fuga aos Combustíveis Fósseis

A conquista da maioria absoluta em agosto não foi um fenómeno isolado, mas sim o ponto de ebulição de uma tendência acelerada pelas notícias do constante aumento do preço dos combustíveis. O acompanhamento da quota de mercado desde o início do ano demonstra uma correlação direta entre o encarecimento da energia fóssil e a adoção da mobilidade elétrica.

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No arranque do ano, em janeiro, os veículos recarregáveis (BEV e PHEV) representavam já uma fatia robusta de 37,78% do mercado (4 769 unidades BEV e 2 419 unidades PHEV). Durante o primeiro quadrimestre, o mercado estabilizou: a quota conjunta oscilou entre os 33% e os 35%. No entanto, à medida que a primavera avançou e o preço da gasolina se aproximou perigosamente da barreira dos 2,00 € por litro, o mercado reagiu de forma drástica.

A partir de maio, a curva de adoção dos elétricos iniciou uma escalada ininterrupta (BEV + PHEV):

  • Maio: 40,95%
  • Junho: 42,23%.
  • Julho: 46,45%.
  • Agosto: 50,77%.

A subida dos preços nas bombas de abastecimento transformou a aquisição de um veículo elétrico de uma mera “opção ambiental” para uma necessidade de sobrevivência económica das famílias e empresas. O custo total de propriedade (TCO) desequilibrou-se fortemente a favor dos veículos a bateria, anulando as dúvidas que ainda persistiam sobre os custos de aquisição iniciais.

O Declínio Acentuado da Combustão Tradicional

O reverso do crescimento esmagador da mobilidade elétrica é o colapso acelerado dos motores de combustão tradicionais. Em agosto, a soma de todos os automóveis novos movidos exclusivamente a gasolina ou gasóleo fixou-se em meras 3 906 unidades, o equivalente a apenas 23,62% do mercado. O veículo 100% elétrico, de forma isolada, vendeu substancialmente mais (5 914 unidades) do que toda a oferta a combustão pura combinada.

A análise individual demonstra a perda de protagonismo destas motorizações:

  • Gasolina: Registou apenas 1 921 matrículas em agosto (11,62%). Trata-se de uma queda abrupta face ao pico registado em março, mês em que liderou as motorizações térmicas com 6 501 unidades comercializadas.
  • Gasóleo: O histórico dominador do mercado português continuou a sua marginalização, assegurando apenas 1 985 unidades em agosto (12,00%). Mesmo com volumes mensais em torno das 3 000 unidades durante a primavera, o diesel perdeu o seu principal trunfo comercial — o baixo custo por quilómetro — face à eficiência dos motores elétricos.

Neste cenário de preços inflacionados dos combustíveis líquidos, o GPL assumiu-se como a única verdadeira tábua de salvação dentro dos motores térmicos para o segmento de baixo custo. Os modelos a Gasolina/GPL fecharam o mês de agosto com 1 363 unidades (8,24% de quota), mantendo uma prestação muito consistente desde a primavera (chegou a atingir as 2 183 unidades em junho). Com o litro de GPL significativamente mais barato, esta opção continua a captar o consumidor privado sem possibilidade de carregamento elétrico domiciliário.

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A meio caminho, os ligeiros de mercadorias

O mercado dos veículos ligeiros de mercadorias em Portugal mostra também que a eletrificação está a avançar a largos passos. Embora exista ainda uma enorme dependência do motor a combustão tradicional. De acordo com os dados referentes a agosto de 2026, dos 2 449 veículos ligeiros de mercadoria matriculados, o gasóleo foi responsável por 1 570 unidades, o que se traduz numa quota de 64,1%. A gasolina pura representa uma fração residual com apenas 4 veículos registados (0,2%).

Num setor onde o gasóleo foi sempre hegemónico, os sinais de eletrificação nos ligeiros de mercadorias começam a fazer-se sentir, impulsionados pela necessidade de renovação das frotas empresariais ligadas à logística urbana de curto curso e entregas de encomendas online. Em agosto, o segmento dos veículos 100% elétricos (BEV) alcançou 835 matrículas, garantindo uma quota já muito relevante de 34,1% do mercado mensal. A presença da tecnologia híbrida, por seu turno, é ainda incipiente, com os híbridos plug-in (PHEV) a gasolina a somarem apenas 15 unidades (0,6%) e os híbridos convencionais (HEV) a gasóleo a registarem 25 unidades (1,0%).

Finalmente, os veículos pesados entre os autocarros elétricos e as mercadorias

No que concerne ao setor dos pesados, a realidade do transporte de passageiros (autocarros) demonstra uma transição enérgica e acelerada para as tecnologias sem emissões, reflexo do esforço de descarbonização do transporte público e das frotas camarárias. Num mês com 73 veículos pesados de passageiros matriculados, o motor elétrico (BEV) assumiu a liderança incontestável com 45 unidades registadas, correspondendo a uma expressiva quota de 61,6%. O gasóleo tradicional, que durante décadas monopolizou este segmento, ficou relegado para segundo plano, com 28 unidades, equivalentes a 38,4% do mercado.

Em contrapartida, o mercado dos pesados de mercadorias espelha as dificuldades estruturais e logísticas de eletrificar o transporte rodoviário de longo curso e cargas intensivas. Em agosto de 2026, de um total de 601 pesados de mercadorias novos registados em Portugal, o domínio do gasóleo é praticamente absoluto, somando 593 matrículas (98,7%). A alternativa elétrica neste segmento específico permanece meramente simbólica, cingindo-se a apenas 5 unidades (0,8%), acompanhadas por 3 veículos movidos a Gasóleo/GNL (0,5%).