A história de uma escola de Arruda, os contratos de associação e as estatísticas perniciosas dos rankings dos exames do 9° ano

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O Externato José Alberto Faria obteve alguns dos melhores resultados nos rankings dos exames da região, e é dada como exemplo de boa gestão dos dinheiros públicos através de contratos de associação. Mas será que que a partir dos resultados de uma única escola se podem tirar conclusões a nível nacional?

Este artigo apenas cobre a primeira parte sobre os resultados dos exames do 9° ano. Amanhã segue a segunda. Sobre a visão acerca dos exames do secundário, fica para um futuro próximo.

Visto que a base de dados dos resultados é pública, aceitam-se desafios para outros indicadores.

O Externato João Alberto Faria, um caso de sucesso

Há 24 anos passei pelos portões do Externato Irene Lisboa pela última vez. De lá para cá, a escola mudou de instalações e de nome, para o atual Externato José Alberto Faria, em honra do seu fundador. No entanto, não é hoje a hora de rever considerações sobre a legitimidade da troca do nome de uma pedagoga fundamental da sua época ou do fundador da escola. No momento atual é mais importante analisar os resultados dos alunos desta escola face à realidade regional e nacional.

Este tema veio à baila de alguns sectores da opinião pública graças a um artigo de opinião do Dr. João Pires da Cruz, cuja obra científica em métodos de pedagogia ignorava até hoje, mas face aos comentários publicados sobre o mesmo, devem ser bastante relevantes, não obstante a sua formação em Física, que penso eu deve ter incluído extensos temas em estatística.

Nesse artigo de opinião, o Sr. Dr. faz rasgados elogios aos resultados dos exames dos alunos do Externato José Alberto Faria, e como o facto de ser uma escola privada com contrato de associação, a torna o símbolo e a prova de que esse será o caminho a percorrerão caminho de melhor educação que o estado pode fornecer com os impostos dos contribuintes.

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Para já, vamos-nos limitar a analisar os resultados dos exames do 3º ciclo do ensino básico, vulgo 9º ano, nas vertentes de Matemática e Português, onde obteve os valores médios de 3,53 e 3,31 respectivamente. Ora sendo a única instituição que lecciona o 3º ciclo do ensino básico e secundário do concelho de Arruda dos Vinhos, este estabelecimento é necessariamente o melhor do concelho, quer público quer privado 🙂 .  Uma avaliação mais abrangente a nível nacional revela que estes valores são significativamente superiores à media, de onde podemos sem sombra de dúvida dizer que esta escola obtém resultados que todos, alunos e pessoal docente e não docente, devem estar orgulhosos.

Podemos e até devemos ter então uma visão mais regional sobre o tema, olhando para os resultados dos concelhos fronteiros aos de Arruda dos Vinhos, nomeadamente, Ajambuja, Loures, Mafra, Cadaval, Vila Franca de Xira e Sobral de Monte Agraço. Neste caso, e comparando com as restantes 41 escolas do sistema público e privado, o Externato João Alberto Faria fica num muito honroso 3º lugar em ambas as provas, atrás de duas escolas privadas e à frente de todas as escolas públicas. Pode-se então dizer que numa análise superficial se trata de um caso de sucesso das escolas com contrato de associação.

Nem todas as escolas com contrato de associação custam o mesmo

No passado esta escolha foi o centro de grandes discussões sobre as escolhas com contrato de associação, mesmo antes do grande reboliço público do último verão, quando em 2001, o estado decidiu construir uma escola pública no concelho, substituindo a escola privada da época. Esta decisão foi alvo de violentos protestos na época, resultando numa solução única a nível nacional: uma PPP na educação, onde o estado e a união europeia custearam a construção, e o privado garante a operação com verbas do orçamento do estado. Uma normal PPP, portanto, mas daquelas que todos aplaudem, face aos resultados publicados e à satisfação dos utentes.

Assim sendo, vale a pena olhar com um pouco mais de critério os números apresentados. Olhando novamente para os rankings do 9° ano, facilmente se constata que os seus resultados são superiores às escolas públicas dos concelhos fronteiros, bem como a algumas instituições privadas, tais como os colégios José Álvaro Vidal e Cesário Verde, ambos com médias negativas nestes exames. As notas obtidas pelos alunos do Externato João Alberto Faria são significativamente mais elevadas, na ordem dos 25% ( 3,53 vs 2,78 vs 2,59). Podemos de certo concluir que alguma coisa de correcto se está a fazer no Externato, e de muito errado se faz em algumas instituições do ensino privado.

Notas dos colégios com contrato de associação no distrito de LisboaO tema torna-se no entanto muito mais interessante quando se olha para o topo da tabela, onde aparecem duas instituições privadas, mas uma delas faz também parte do sistema público de ensino, o colégio Santo Andre. O colégio Santo André, localizado na Venda do Pinheiro, funciona também ao abrigo de um contrato de associação. A comparação entre as duas instituições pode então ser tratada como um caso de estudo, já que ambas distam a cerca de 31Km uma da outra, deverão servir populações de perfil não muito díspar.

 

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Curiosamente, o colégio Santo André apresenta valores de notas dos exames ainda superiores aos dos alunos do Externato João Alberto Faria. Portanto, e por maioria de razão, algo de muito bem se faz nesse colégio, ainda melhor que no Externato. Visto que as contas das escolas com contrato de associação são facilmente acessíveis, podemos aprofundar o estudo das mesmas.

Para começar, elenquemos alguns valores que serão tomados como referencia, referentes ao ano lectivo 2015/2016:

  • Valor custeado pelo estado por turma: 85.288€
  • Custo por turma e por aluno no ensino básico no sistema público é de 65.000€/ano ou 2.950€/ano respectivamente (fonte)
  • O número médio de alunos por turma é de 22 para o ensino básico.

Ora, alguns números saltam imediatamente à vista:

  • As turmas do Externato João Alberto Faria, pelo menos segundo o número de alunos que vão a exame, são significativamente menores que das restantes escolas com contrato de associação ( Colegio Santo André – 25, Colégio Miramar – 22). Esta diferença, dizem os entendidos em pedagogia, deveria dar uma vantagem significativa ao Externato. No entanto, tal não acontece. A escola com mais alunos é também aquela com melhores resultados.Alunos por turma
  • O custo por aluno do Externato João Alberto Faria é 41% superior ao do Colégio Santo André.
  • O custo por aluno do Externato João Alberto Faria é 96% superior quando comparado com as escolas públicas.

Ora, e embora os resultados sejam bons, é falso que o Externato João Alberto Faria seja um exemplo de boa gestão dos dinheiros públicos na educação, uma vez que o custo por aluno é praticamente o dobro do ensino público. No entanto pode-se teorizar, que parte das razões pelas quais o ensino público apresenta maus resultados se prende precisamente com a falta de recursos. E mesmo neste caso, esta teoria não pode ser levada à risca pelo menos a contar com os colégios privados que ficam atrás nos rankings.

Por outro lado, a gestão privada não significa automaticamente boa gestão. A escola com melhores resultados apresenta um número de alunos por turma 10% superior à média nacional, o que poderia indicar que os resultados poderiam ser ainda melhores, talvez competindo com os das escolas do ensino privado no topo.

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Estes custos elevados não são no entanto responsabilidade única das escolas, mas também do próprio município de Arrudas dos Vinhos, o qual é responsável pela contabilização do número necessário de turmas para o Min. da Educação. Das 10 solicitadas, 8 deveriam ser suficientes (assumindo o mesmo número de crianças com Necessidades Educativas Especiais, que é um dos pilares do estudo sobre o custo das turmas…) traduzindo-se numa poupança de 170.000€/ano para o estado.

O estado da arte dos colégios com contrato de educação

Ora, já vimos que em algumas escolas com contrato de associação é possível obter resultados bastantes bom, mas a um custo elevado, mas será que o mesmo acontece a nível nacional?

A resposta é um rotundo não. Usar um único caso de estudo para demonstrar a correção de uma teoria política é estatisticamente uma estupidez, e com resultados perniciosos a nível político, pois vemos:

  • 69% dos colégios com contratos de associação apresentam resultados médio negativos negativos na prova de matemática
  • O custo médio por aluno nos colégios com contratos de associação é 21% superior ao custo dos mesmos alunos no ensino público
  • 10% dessas escolas tem um custo médio por aluno superior ao dobro do praticado no público, sendo que metade destas continuam a ter médias negativas a matemática.
  • Os resultados dos colégios com contrato de associação embora sejam em média superiores aos das escolas publicas, são no entanto constantemente inferiores à média das escolas privadas.

Os rankings neste caso pouco mais nos dizem que em média, as escolas que podem ou conseguem investir mais nos seus alunos, conseguem em média melhores resultados. Mesmo esta conclusão não é absoluta, face ao número de escolas privadas com custos para os utentes que apresentam resultados bastantes negativos, mesmo quando comparados com os do ensino público.
Dos rankings ao ensino privado

Penso que será uma conclusão de fácil reconhecimento, que de alguma forma, quando maior o investimento no ensino melhor será o seu resultado. Esta seria uma explicação simples, não fosse o facto de que nem sempre estar correcta.

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