Como escolher uma máscara para os próximos 6 meses.

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Dentro de dias vamos começar a perceber o que é o “novo normal”, onde as pessoas não se cumprimentam, não se aproximam, e mal lhes vemos a cara por detrás do novo acessório de moda: a máscara. Infelizmente a moda é trazida pela necessidade e não pela vaidade, e fará parte do nosso novo normal até pelo menos à disponibilidade de uma vacina eficaz. O que nos leva ao tema das máscaras.

Em alguns países, como a Áustria e República Checa, o sucesso do combate ao Covid-19 foi em parte atribuído ao uso alargado e imediato de máscaras pela população, mas isso só é possível quando estas existem em quantidades suficientes, o que num país de 10 milhões de habitantes como Portugal, só agora começa a acontecer, e só com o recurso a produção local. De que tipos existem, qual a sua eficácia, protegem o utilizador ou também os outros, quanto custam. Uma coisa é certa: sair à rua agora tem um preço.

A boa notícia é que há uma quantidade gigantesca de gente a movimentar-se no sentido de disponibilizar máscaras suficientes para a população, com qualidade certificada e com preços acessíveis. Mas nem todas são assim.

Apresentação do CITEVE

O CITEVE é uma plataforma de apoio à indústria têxtil nacional, e uma das razões pelas quais a indústria têxtil portuguesa se conseguiu reerguer depois da entrada dos têxteis chineses na europa. É uma das poucas entidades que podem fazer certificações de equipamento médico de proteção individual, bem como da certificação CE de outros materiais têxteis.

Prevendo essa grande necessidade de máscaras que haverá nos próximos meses, e de forma a evitar o caos que já se estava a instalar, foi criado um conjunto de normas que possibilitam a certificação de máscaras não médicas 1 2, distinguindo aquelas que são para uso hospitalar, das que são para uso social mas ainda têm capacidades de proteger o utilizador da Covid-19, daquelas que não passam de acessórios de moda. Estas normas publicadas pelo CITEVE, tiveram a participação do Infarmed e do Ministério da Saúde, são agora utilizadas pela ASAE, para aferir a legalidade das mesmas.

Para facilitar a identificação destas máscaras foi também criado um formulário padrão, que identifica o tipo de máscara, se é lavável e nesse caso, quantas vezes pode ser lavável, mantendo a capacidade de filtragem. Isto porque, independentemente do que vos tentarem vender, qualquer material filtrante perde eficácia depois de uma lavagem, só é necessário saber o grau dessa perda.
Obviamente para se aferir esse número máximo de lavagens e o nível de filtragem é necessário realizar testes, que precisamente encaixam o modelo de máscara numa categoria e garantem o número mínimo de lavagens. Qualquer máscara sem certificação representa um perigo potencial e deve ser evitada a qualquer custo.

A máscara de pano de algodão

Há muitas máscaras que podem cair nesta categoria, mas todas têm duas características em comum:

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  1. São todas feitas com uma ou duas camadas de tecido, tipicamente algodão. A maior parte delas têm padrões ou outros motivos decorativos
  2. Não são certificadas pelo CITEVE

Estas máscaras, apesar de frequentemente serem de construção muito similar às máscaras cirúrgicas, na realidade não oferecem o mesmo nível de protecção, atingido níveis tão baixos como os 35% 3, o que representa um nível quase inútil de protecção contra a Covid-19. De facto, estudos apontam que o uso destas máscaras efectivamente aumentam o risco de contágio de doenças 4, provavelmente devido à conjugação da baixa protecção, com a maior exposição ao risco que os utilizadores têm pensando que estão devidamente protegidos.

Tendo em conta que neste momento já todas as farmácias e grande parte das grandes superfícies comerciais, já têm stocks confortáveis de máscaras certificadas (médicas ou de uso social), é de evitar o uso destas para qualquer propósito que não a ida à farmácia mais próxima para comprar uma máscara que realmente ofereça protecção .

De notar que os seguranças das grandes superfícies não estão a aceitar estas máscaras para permitir a entrada nas mesmas e, mesmo nas últimas declarações da Ministra da Saúde, Marta Temido, não é claro que alguma vez venham a ser aceites.

 

A máscara de pano, mas com filtro

Máscaras da RUGY, cuja certificação está a decorrer.

Se algum dia as máscaras de pano forem consideradas como protecção contra a Covid-19, só o serão se tiverem uma camada de um material efectivamente filtrante. Este material pode ser tão simples como tecido não tecido como é usado para a limpeza de recém nascidos. Esta camada simples transforma uma máscara inútil contra o Covid-19, num equipamento que, em alguns casos, tem um desempenho que se aproxima ou excede o das máscaras cirúrgicas 3. Esse desempenho é obtido assumindo que a construção destas máscaras é correctamente feito, de forma que não existam fluxos de ar que não passem pelo material filtrante. Finalmente, a colocação destas máscaras é também crítica, uma característica partilhada com as máscaras cirúrgicas, sem a qual a sua eficiência é ainda mais reduzida.

Outra alternativa, é fazer passar essas máscaras pelo processo de certificação do CITEVE, que obrigatoriamente inclui o material filtrante, de forma a dar garantias de qualidade ao utilizador. É este o caso de novas marcas portuguesas como a RUGY. Será de prever que outras marcas sigam o mesmo caminho em breve.

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No entanto, é ainda possível melhorar a eficiência de filtragem destas máscaras, através do uso de materiais filtrantes de alto desempenho, conhecidos por filtros PM2.5, como aqueles usados na Ásia para a protecção contra a poluição causada pelos motores diesel, o que curiosamente é também a protecção necessária contra o vírus que provoca a Covid-19.

Como é que estes filtros funcionam? Exactamente da mesma forma que as máscaras cirúrgicas: são para descartar após cada utilização, embora os filtros PM2.5 tenham uma longevidade maior, de forma que podem ser usados durante mais tempo que os filtros de tecido não tecido.

Qual seria a vantagens destas máscaras? Bem, para começar, podem oferecer algum nível de protecção, mantendo um bom aspecto. O segundo e talvez mais importante, o custo. Um pacote 100 peças de tecido não tecido pode custar cerca de 70 cêntimos, enquanto que os filtros PM2.5 podem custar cerca de 20 cêntimos por peça quando encomendados directamente da China.

A máscara lavável, certificada

Uma das razões pela qual o CITEVE está envolvido na certificação das máscaras, prende-se com o desenvolvimento de um tecido têxtil extremamente avançado, que tem uma eficiência de filtragem de 90%, mantendo essa eficiência durante 50 lavagens. Estas máscaras já começam a ficar disponíveis no mercado, mas o processo de certificação ainda não passou das 5 lavagens, sendo que até que tal aconteça, apenas podemos acreditar na confiança da indústria portuguesa e da marca, que esse patamar será atingido. Uma das razões apontadas pela qual a certificação ainda não foi possível chegar às 50 lavagens prende-se com o tempo que demora a realizar esses testes, uma vez que as máscaras terão de passar por 50 ciclos de lavagem e secagem completa ao ar, o que demorá algumas semanas.

Estas máscaras requerem bastante cuidado no seu manuseamento, nomeadamente na lavagem e na secagem: a temperatura de lavagem não pode exceder os 30º, e não podem ser centrifugadas, sob pena de perder a capacidade de filtragem.

 

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A máscara cirúrgica

O mais básico elemento de protecção contra a Covid-19 é a máscara cirúrgica. Esta tem sido o elemento basilar de protecção dos trabalhadores da área da saúde e dos seus pacientes, bem como dos funcionários de áreas como spas, salões de beleza, mas aparentemente não em lares, onde a infeção grassou descontrolada durante semanas. Este material era tão comum no ambiente hospitalar que nunca se antecipou que pudesse haver limitações na sua disponibilidade. De facto, o sistema de saúde apenas conseguiu obter novas remessas destas máscaras quando as encomendou e transportou directamente da China, aos milhões, em cima das cadeiras que anteriormente transportavam os passageiros dos aviões de longo curso da TAP. Alguns países não perceberam a tempo a importância de negociar directamente com a China, o que deu origem a casos caricatos

Foi por esta razão que durante semanas a DGS insistiu que estas máscaras não eram uma alternativa ao confinamento, seguindo as recomendações do Centro Europeu para a Prevenção e Controlo de Doenças, indicando que este equipamento deveria ser prioritizado para o sistema de saúde. Só após haver uma reposição de stocks, estas máscaras deveriam ser recomendadas à população geral. E de facto, tal aconteceu. Hoje estas máscaras estão disponíveis em literalmente todas as farmácias, hipermercados e máquinas de venda automática em todas as estações de comboio, metro e fluviais.

A sua construção simples explica o seu custo relativamente baixo, mas surpreende pela sua eficácia na prevenção da doença. Estas máscaras são produzidas usando duas camadas de tecido-não-tecido a proteger uma camada de polímero filtrante por estática, com dois simples elásticos. De tão simples a construção que a eficácia deixa um pouco a desejar 3, frequentemente não excedendo os 70% de capacidade de filtragem, no entanto sempre muito superior as máscaras de tecido simples. No entanto, para atingir estes 70% é necessário uma correcta utilização da máscara, especialmente na zona do nariz, de forma a eliminar fugas de ar.

Estas máscaras são de uso único, não devendo ser usadas durante mais que 4 horas consecutivas, devendo ser descartadas de seguida. Isso faz com que o custo diário destas máscaras seja elevado. Estas máscaras chegaram a ser vendidas a 20 cêntimos a unidade, raramente se encontram a menos de 0.60€, pelo menos em Portugal. Portanto, se a ideia for usar estas máscaras frequentemente a única alternativa é comprar também directamente da China, desde que esteja disposto a esperar cerca de 3 a 4 semanas pela entrega. Neste caso, conseguem-se obter a menos de 0.30€ a unidade.

 

Máscara KN95 / FFP2

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A máscara  KN95 / FFP2 é o material de referência contra a Covid-19. Os seus vários nomes derivam das certificações que comprovam o seu desempenho: 95% de eficiência na filtragem de partículas até 2.5 μm, embora algumas delas excedam esse valor até aos 98%: KN95 na China, FFP2/3 na Europa ou N95 nos Estados unidos. Estas certificações são muito similares entre si, podendo ser consideradas como equivalentes.

Na realidade, o valor de 95% não faz jus à sua eficiência contra a Covid-19, uma vez que os estudos recentes, usado o Influenza como referência, dão-nas como 100% eficazes quando usadas correctamente 5.

Estas máscaras não foram desenhadas com qualquer propósito médico, mas em vez disso para utilização industrial, como proteção contra poeiras finas. Eram frequentemente usadas em trabalhos de pintura, gesso, ou pedra, e esperemos que o continuem a fazer. Mais recentemente, estas máscaras encontraram um outro uso, muito mais frequente na Ásia, como protecção contra a poluição atmosférica, e em particular contra as partículas de carbono emitidas por todos os motores turbo, e em particular os diesels. Esta utilização começou durante a epidemia do SARS em 2009, onde as pessoas depois de as usarem como protecção individual também notaram uma melhoria significativa da sua função respiratória. Têm sido extensivamente usadas desde então.

A sua construção é bem mais robusta que a das máscaras cirúrgicas, embora usem o mesmo mesmo componente filtrante. A sua alta capacidade de filtração depende de uma utilização e colocação sem falhas, sendo que qualquer falha na utilização inutiliza na quase totalidade a sua utilidade. No entanto, estas máscaras têm outras características que devem ser tomadas em conta:

  • Estas máscaras são de utilização única, pelo menos usando as melhores práticas, mas podem ser usadas durante maiores períodos de tempo
  • O uso destas máscaras por longos períodos de tempo é extremamente desconfortável, devido ao calor e humidade que se acumula dentro da máscara

Embora estas máscaras nunca foram desenhadas para uso médico, são actualmente extensivamente usadas pelos trabalhadores da área da saúde nos ambientes mais perigosos, em particular nas unidades de cuidados intensivos.

Tal como aconteceu com as máscaras cirúrgicas, o preço destas máscaras sofreu uma inflação significativa. O seu preço variava entre os 2e 3€ no início deste ano, mesmo para marcas mais conhecidas como a 3M. Desde então é comum ver à venda estas máscaras de marcas chinesas a 8€ , o que acontece até hoje, e deverá continuar nos tempos mais próximos. As grandes marcas simplesmente não conseguem suprimir as encomendas, que correspondem a várias ordens de grandeza quando comparadas com o início do ano.

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Quem no entanto conseguiu aumentar a oferta, e na prática abastece grande parte do mundo, são os fabricantes chineses, tirando partido da capacidade instalada e da utilização comum que estas máscaras já tinham na região. Isto faz também com que os preços destas máscaras quando encomendadas directamente da China sejam abaixo dos 2€ por unidade, o que quando comparado com os 8€ que se veêm por cá, seja uma poupança significativa para quem queira usufruir de protecção imbatível.

Máscaras KN95 com válvula

Uma das realidades inevitáveis dos materiais filtrantes, e que quanto maior for a capacidade de filtração, maior será a resistência à passagem desse ar, embora o contrário não seja necessariamente verdade. Este efeito é particularmente visível nas máscaras KN95 onde a respiração é notoriamente mais difícil. Para combater esse efeito, os fabricantes adicionaram uma válvula a estas máscaras, que permitem com que o ar exalado saia sem ser filtrado através da válvula, sem que o ar que entra o faça pela válvula, mantendo então a capacidade de filtração.

Estas máscaras têm uma contra indicação óbvia: ao contrário das restantes máscaras que protegem o utilizador do público, e o público dos utilizadores, estas máscaras não protegem o público do utilizador. Isto significa que uma pessoa infectada irá contagiar as pessoas mais próximas como se não estivesse a usar máscara.

Estas máscaras devem portanto ser evitadas pelo público geral e o seu uso muito contra indicado, excepto quando utilizadas por pessoas cuja utilização das máscaras sem válvula represente um problema, nomeadamente asmáticos e restantes portadores de doenças restritivas do sistema respiratório (bronquite asmática, doença obstrutiva pulmonar crónica, etc).

 

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Máscaras com filtro KN95

Como referido sobre as máscaras KN95, umas das consequências do pós-SARS na Ásia foi o uso abrangente de máscaras contra a poluição. Mas essas máscaras têm alguns problemas no longo prazo:

  • Custo relativamente elevado
  • Aspecto pouco apelativo
  • Baixo desempenho, não permite a actividade desportiva
  • Pouco ecológicas, em particular as versões com válvulas que são fabricadas com plástico.

A solução para todos estes problemas: as máscaras reutilizáveis com filtros KN95 substituíveis.

Estas máscaras são compostas por dois componentes: uma máscara de um material lavável, frequentemente com uma válvula, que serve apenas de suporte estrutural para um filtro de cartão activado para partículas 2.5 μm (também conhecidos por filtros PM2.5). Ora, como a máscara em si não tem um papel relevante na filtragem, os modelos, cores e aplicações desportivas multiplicaram-se.

Os exemplos acima mostram como o número de modelos deste tipo de máscaras explodiu, mas todas elas partilham um componente: um filtro substituível, emboras existam filtros específicos para máscaras para adultos crianças e para desporto.

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Estes filtros fazem todo o trabalho de filtragem, mas ao contrário das máscaras KN95, estes podem ser comprados a menos de 0.20€, o que representa uma poupança substancial quando comparadas com as máscaras cirúrgicas, já nem contando com o muito superior desempenho, ou quando comparadas com as máscaras KN95 descartáveis.

A durabilidade destes filtros é no entanto uma questão pendente. Estes filtros nunca foram pensados como protecção biológica, tal como as máscaras KN95 nunca o foram. No entanto estes dois materiais são no essencial iguais, e esperam-se resultados similares em ambos. Para proteção contra poluição atmosférica, recomenda-se substituir estes filtros uma vez por semana. No entanto, contra a Covid-19 não devem ser usados consecutivamente durante mais que 8 horas. No final deste tempo de uso devem ser substituídos, tal como as máscaras em si, passando depois ambos por um processo de limpeza asséptica.

Últimas palavras

Não sabemos exactamente como serão os meses até ao final do ano. Se haverá vacina ou um medicamento capaz de tratar eficazmente a Covid-19. Mas uma coisa poderemos ter a certeza: as máscaras farão parte da vida quotidiana nos próximos longos meses. Primeiro parecerão estranhas. Depois um hábito. Finalmente, e mesmo quando já não forem precisas, sentirmos-nos despidos sem elas. Mas até que tal aconteça, é importante ter uma noção de como funcionam, quais as suas vantagens e desvantagens, e igualmente importante, quanto custam.

  1. Máscara Comunitária – Modelo B []
  2. Máscara Comunitária – Modelo C[]
  3. Amy V Mueller, Loretta A Fernandez; Assessment of Fabric Masks as Alternatives to Standard Surgical Masks in Terms of Particle Filtration Efficiency; medRxiv 2020.04.17.20069567; doi:https://doi.org/10.1101/2020.04.17.20069567[][][]
  4. MacIntyre CR, Seale H, Dung TC, et al A cluster randomised trial of cloth masks compared with medical masks in healthcare workers BMJ Open 2015;5:e006577. doi: 10.1136/bmjopen-2014-006577[]
  5. D. F. Johnson, J. D. Druce, C. Birch, M. L. Grayson, A Quantitative Assessment of the Efficacy of Surgical and N95 Masks to Filter Influenza Virus in Patients with Acute Influenza Infection, Clinical Infectious Diseases, Volume 49, Issue 2, 15 July 2009, Pages 275–277, https://doi.org/10.1086/600041[]
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