E à terceira semana, Lisboa ainda está muito abaixo dos valores atingidos no Norte.

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Novas infecções por 100 000 habitantes nos 7 dias anteriores por região.
Fontes: DGS, INE, Cálculos próprios
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As notícias das últimas três semanas versaram invariavelmente sobre o nível de controlo, o falta dele, da propagação da COVID-19 na região de Lisboa e Vale do Tejo (LVT). E no entanto com alguma razão. Os níveis de propagação em alguns concelhos da região de Lisboa têm sido substancialmente superiores aos 50 novos infectados por cada 100 000.
No entanto, essas notícias ignoram por completo o que se passou desde o início da pandemia. Efectivamente, se recuarmos no tempo cerca de 2 meses, podemos tirar muitas conclusões extremamente interessantes.

É indiscutível que nas últimas 3 semanas a região de Lisboa tem liderado a taxa de incidência da doença. No entanto, esta liderança nem aconteceu nas últimas três semanas, nem corresponde a um grande aumento desses casos. Se olharmos para a semana de 4 Abril, já quando o foco na região Norte começava a ceder, o número de infeções na região norte era substancialmente superior a qualquer outra região, não tendo sido sequer aproximado por qualquer outra região desde então. De facto, até à semana de 6 de Junho, o valor médio da região de Lisboa era de 30 infecções por 100 000 habitantes.

Este é um facto de nunca foi reconhecido: a região de Lisboa sempre teve uma quantidade significativa de transmissões na comunidade. A diferença é que agora não existe nenhuma outra região com números superiores, e acima de tudo, com tanta mortes. A razão pela qual a região de Lisboa apresenta números agora superiores prende-se com o maior números de testes, sendo que a grande maioria dos positivos são de pessoas assintomáticas. Esta conclusão é suportada pelo número de fatalidades na região de Lisboa e rácio entre o número de infectados e fatalidades.

Fatalidades por 100 000 Habitantes.
Fontes: DGS, INE, Cálculos próprios
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Este rácio é tão mais importante porque permite aferir o grau de assintomáticos que não estão a ter detectados. Os estudos mais recentes da Suécia, apontam para que a taxa de fatalidade por infecções (incluíndo os assintomáticos) seja em torno de 0.6%, com intervalo de confiança entre os 0.4% e os 1.1%1. Sendo que este valor apenas incluí as fatalidades com testes positivos, e não o excesso de fatalidade no país. Mas mesmo usando o valor de 1.1%, o que resulta num cálculo inferior do número de assintomáticos,

A região de Lisboa apresenta uma taxa de fatalidade de 2.63%, o que aponta para que cerca de metades dos infectados não estão a ser contabilizados, enquanto que a taxa de fatalidade nas regiões Norte e Centro estão actualmente em 4.72% e 6.23%, respectivamente, o que permite concluir que nessas regiões o número de não detectados foi 4 a 6 vezes o número de infectados conhecidos. Estes dados suportam a conclusão de que a grande subida na região de Lisboa é devido ao aumento do número de testes.

Estes valores também explicam porque Portugal aparece agora no topo dos países com mais infecções na Europa, e precisamente pela mesma razão: estamos a fazer mais testes que a maioria dos outros países, ou simplesmente não estamos a esconder.

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Finalmente, é preciso ainda clarificar a natureza destas infecções: jovens, assintomáticos e a trabalhar em empregos pouco qualificados e mal pagos. Mesmo assim, não significavam que estes não venham a ter problemas. Simplesmente a taxa de recuperação destes infectados quando são obrigados a suporte de respiração mecânico, sobrevivem em mais de 90% dos casos, enquanto que os com mais de 65% morrem em mais de 70% dos casos 2.

De notar também uma nova subida nas regiões que até agora têm mantido valores mais baixos: Algarve e Alentejo, cada um causado por um foco de infecção: uma festa em Loulé e um lar em Reguengos de Monsaraz. Estes casos demonstram um padrão de que está a emergir em todo o mundo, que relaciona focos de infecção com origem num único infectado, em locais fechados, com grande concentração de pessoas. Mas isto ficará para outra altura.

Olhando para os municípios

Novas infecções por 100 000 habitantes nos 7 dias anteriores nos municípios com mais infecções.
Fontes: DGS, INE, Cálculos próprios
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Das poucas alterações que são visíveis face à semana passada, destacam-se dois indicadores importantes:

  1. Quatro dos cinco municípios com maiores taxas de infeção apresentam uma melhoria nesse indicador. A excepção é o município de Sintra, onde subiu ligeiramente face à semana passada.
  2. No meio da tabela, a taxa de propagação está a subir, mas ainda em valores nomeadamente baixos, como é o caso de municípios com a Moita, Montijo, Cascais, ou Mafra.

Será de prever que estas situações de subida e descida de infecções em aéreas geográficas bem delimitadas venham a acontecer com frequência, devido à natureza da doença. Nestas situações, grande picos tendem a ser rapidamente debelados, desde que não atinjam grandes proporções, e depois a descida é sempre lenta. É este efeito que se tem visto em todas as grandes cidades europeias.

Novas infecções por 100 000 habitantes nos 7 dias anteriores nos municípios com mais infecções.
Fontes: DGS, INE, Cálculos próprios
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Finalmente, fica o novo pódio dos concelhos com maiores taxas de infecção, para mais fácil comparação com as semanas anteriores.

A grande novidade é a evolução do concelho de Loures, onde se registou uma diminuição mais significativa dos novos casos que a maioria dos outros municípios, e ocupa agora o 3º lugar, as ainda com um valor absoluto de 85 novos casos por 100 00 habitantes, que é bastante elevado.

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De resto, as posições relativas mantêm-se estáveis, embora a subida nos vários municípios do meio da tabela faça com os que valor agregado da região de Lisboa tenha sofrido uma subida ligeira esta semana.

Se olharmos para a taxa de infecções activas nesses mesmos municípios, a imagem não varia significativamente, sendo que Loures mantém o segundo lugar, mas a subida mais significativa é mesmo a de Sintra. Curiosamente, a maior parte dos municípios com maior número de infecções mostra valores mais elevados neste indicado, resultado do facto que as infecções que ocorreram no passado ainda pesam mais que as infecções mais recentes.

 

Infecções activas por 100 000 habitantes
Fontes: DGS, INE, Cálculos próprios
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  1. The infection fatality rate of COVID-19 in Stockholm – Technical report[]
  2. Epidemiology, clinical course, and outcomes of critically ill adults with COVID-19 in New York City: a prospective cohort study – Matthew J Cummings, Matthew R Baldwin, Darryl Abrams, Samuel D Jacobson, Benjamin J Meyer, Elizabeth M Balough[]
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