Usar os rankings para comprar coisas comparáveis

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A comunicação social anualmente inunda as primeiras páginas com a mesma notícia: as escolas privadas obtêm melhores resultados que as escolas públicas. Ora, que as escolas privadas possam ser melhores que as públicas não é notícia para ninguém, até porque não vale a pena comprar o que deveria ser incomparável. Agora, será que todas as escolas privadas obtêm os mesmos resultados? E as públicas? E como se comparam as PPP da educação (colégios com contratos de associação) com as escolas públicas?

Há muitas questões que valeriam a pena ser esmiuçadas, mas que nunca chegaram à comunicação social…

Edit: Estão também disponíveis os rankings dos exames do 3º ciclo das escolas privadas para o distrito de Lisboa e para a área metropolitana do Porto.

Os sórdidos detalhes dos rankings dos exames

Assumindo a premissa que de certa forma, quanto maior for o investimento melhores serão os resultados nos exames, então os resultados globais até parecem bater certo. Esta lógica parace estar coberta pelos resultados, pelo menos a partir de uma patamar mínimo, que no estantl esta ainda acima dos valores investidos pelo estado nas escolas públicas, mas talvez esteja mais próximo dos valores dos contratos de associação. Esta métrica exclui obviamente factores externos tais como a envolvente sócio económica, ou os alunos com necessidades educativas especiais, os tais que não se enquadram na narrativa que “não existem alunos que não conseguem apreender”. Visto que não existem dados oficiais sobre essas duas métricas, vamos por agora assumir erradamente que não são significativas. No entanto, nem todos os resultados batem certo.

Voltando às premissas, vamos assumir que uma família coloca as suas crianças numa escola privada porque crê que a sua educação será melhor, sendo que para isso está disposta a investir do seu próprio bolso, mesmo quando os seus impostos já lhe possibilitam essa necessidade sem custos adicionais. Com essa premissa, então não haverá colégios privados que custem menos de 2950€/ano, e todos eles obterão melhores resultados que as escolas públicas da região.

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Ora, tal é facilmente demonstrado como sendo errado. Olhando apenas para o distrito de Lisboa, de forma a manter um contexto regional, e apenas para o exame de Português, se nos primeiras 18 posições estão unicamente instituições privadas, nenhuma delas com contrato de associação, num muito honroso 21° lugar aparece a Escola Básica de Telheiras, e logo a seguir aparece o primeiro colégio com contrato de associação, o Colégio Santo André.

Até ao quinquagésimo lugar, aparecem tanto escolas públicas, como colégios privados, ou com contrato de associação. É no entanto curioso notar que a grande maioria das escolas, qualquer que seja a sua propriedade, publicado ou privada se situam no município de Lisboa. Se ainda se podem colocar questões comerciais na localização dos colégios privados, no que diz respeito às escolas públicas, parece demonstrar que efetivamente alguma envolvente sócio-económica trás consequências significativas para os resultados escolares.

Efectivamente, se à primeira vista, o Externato João Alberto Faria se mostrava a como um caso exemplar, quando incluímos todo o distrito de Lisboa, notamos que existem 5 escolas públicas, 4 delas no concelho de Lisboa, que obtêm melhor s resultados, e a um custo significativamente menor para o orçamento do estado. Daqui podem-se tirar algumas conclusões muito significativas:

  • Os colégios com contrato de assinado não obtém automaticamente melhores resultados que as escolas públicas;
  • Atirar dinheiro para cima desses colégios não é uma garantia de resultados;

Adicionalmente, uma análise mais detalhada às notas obtidas no distrito de Lisboa obtém valores díspares da média nacional.

 

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As notas obtidas nas escolas públicas e privadas no distrito de Lisboa são significativamente superiores àquelas obtidas no resto do país, sendo que a diferença entre o ensino público e privado (e mesmo com contratos de associação) é bastante mais reduzida no distrito de Lisboa que no resto do país, podendo-se mesmo dizer que as diferenças das notas entre o ensino público e os colégios com contratos de associação é mínimo.

No entanto, a perspectiva global do resto do país é completamente diferente: existe uma maior diferença nas notas entre público e privado, e entre estas duas e os colégios com contratos de associação. É então claro que existe uma contribuição extraordinariamente importante da envolvolvente socio-econômica para os resultados educativos.

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Curiosamente, estas conclusões contradizem a narrativa dos defensores dos colégios com contrato de associação.

Mas não era apenas sobre os contratos de associação que esta capítulo se destina, mas aos colégios puramente privados. Se o objectivo de uma educação privada é obter melhores resultados educativos, então porque nem todos os colégios privados obtêm melhores resultados que as escolas públicas? De facto, e olhando apenas para os rankings abaixo de 50 do distrito de Lisboa, podemos encontrar 22 colégios privados, ocupando dois deles posições nos 20 piores de todo o sistema de ensino: o Instituto Militar dos Pupilos do Exército e o Colégio D. Nuno Álvares Pereira, ambos no concelho de Lisboa (vamos ignorar os 4 exames do colégio Verney por não terem significância estatística). Ora, podemos então chegar a mais algumas conclusões interessantes.

  • Os rankings poder ser usados para seriar escolas privadas, distinguindo aquelas que de facto podem dar uma educação onde os resultados podem ser proporcionais ao investimento, e aquelas que para em não fazer sentido existir, e onde o investimento parece não ter retorno.
  • A existência de escolas privadas cujos resultados são significavamente abaixo das escolas públicas da mesma região, não faz sentido.
  • A existência de uma entidade dentro da esfera pública, que restringe o seu acesso dependento do sector de atividade dos pais, subsidiada pelo estado, e que mesmo assim está no Top20 das escolas com piores resultados, é um completo disparate. É este o caso do Instituto dos Pupilos do Exército. É este um caso gritante de mau uso dos dinheiros públicos (e privados….).

Existe curiosamente um detalhe que explica de forma muito significativa a diferença de resultados entre o ensino privado e o ensino público, que sobressai nos gráficos acima, e que o gráfico abaixo destaca:

Se de alguns sectores da sociedade ouvimos que os rankings dos exames são inúteis, tal não pode estar mais longe da verdade, desde que cada uma das métricas seja entendida e contextualizada. Nas escolas, públicas ou privadas, existem-nas melhores ou piores, em contextos sócio económicos distintos. O erro está precisamente em olhar para os valores médios como realidades absolutas ou para casos particulares como realidades nacionais. Pode-se até dizer que a falha na interpretação destes resultados se deve ao falhanço do sistema de ensino na área das estatísticas :).

Seria possível obter ainda mais dados interessantes, de outras regiões do país, mas acabam todos por cair nos casos acima. No entanto, pode-se sempre fazê-las caso haja mercado e leitores.

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