A segunda vaga grassa na Europa, e em Portugal os números voltaram a atingir os recordes da Primavera, mas não são comparáveis.

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podemos concluir que apenas 1 em cada 20 casos foram detectados na altura, ou de forma inversa, o norte teve vinte vezes mais casos que o números oficiais da época

Novos casos por 100 000 habitantes em alguns países da OCDE.
Fonte: European Center for Disease Prevention and Control
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Parece que o tempo voltou para trás em alguns países da Europa, e não aprenderam nada desde então. Espanha regista novamente valores de transmissão da COVID-19 que eram vistos desde os desastrosos meses de Abril e Maio, e a subida não parece estar a dar qualquer sinal de abrandar. De relembrar que Espanha ocupa actualmente o 2º lugar os países com maior número de vítimas per capita da Europa, apenas atrás da Bélgica. No entanto, e por este andar, pode ser que Espanha ultrapasse a Bélgica nessa competição que achava ninguém querer vencer. Aparentemente, em Espanha discordam.

No entanto, Espanha não está sozinha. França, que ocupa o 4º lugar dos países com maior número de mortes por COVID-19 per capita, também está a experiência uma subida exponencial do número de casos, embora não ainda ao nível espanhol.

Novos casos por 100 000 habitantes nos países da Europa.
Fonte: European Center for Disease Prevention and Control
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Na restante Europa, o cenário é todo mais ou menos sombrio: na Áustria e na República Checa são atingidos os valores mais elevados de sempre (fazendo cair o ministro da Saúde local), enquanto que outros países como a Suíça, Holanda, Dinamarca, Reino Unido, Irlanda são atingidos os valores mais elevados desde a primavera, embora ainda distantes dos picos atingidos na altura.

Estamos claramente no início da segunda vaga na Europa. E existe uma certeza no ar: esta vaga só terminará com o final do Inverno, com a disponibilização da vacina, o que acontecer primeiro.

Existe no entanto uma notícia que pode trazer alguma esperança que esta vaga não atinja as proporções que atingiu na Primavera: a taxa de fatalidades por infecção é agora cerca de vez vezes inferior à registada.

A vaga da primavera, teve um impacto tão elevado na mortalidade, não porque o vírus estivesse especialmente activo, mas porque os infectados não foram testados em número suficiente. Desta forma, em países com Espanha ou Itália, o número de infecções foi na realidade cerca de 10 vezes superior ao registado nos números oficiais nas semanas mais críticas da pandemia. É natural, portanto, que nesta vaga sejam atingidos números iguais ou superiores aos da altura, sem que isso signifique se se atinjam o mesmo número de mortos.

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Já o mesmo se está a passar com Portugal, que mantém.se no grupo de países com menor taxa de propagação, e bem abaixo da média Europeia.

Novos casos por 100 000 habitantes por região administrativa.
Fonte: DGS
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Não fosse o facto de que os números fossem tão maus na Europa, o pânico em Portugal já se teria instalado. Na semana passada Portugal voltou a atingir um novo recorde. O valor a nível nacional atingiu os 32.07 infecções por 100 000 habitantes, valor que não se verificava desde a semana de 11 de Abril (!!). No entanto este valor não nos deve alarmar já, como veremos mais abaixo.

É por esta razão que os números actuais não são comparáveis com os da primavera, mesmo que os excedam.

A razão pela qual a média nacional atingiu este valor prende-se com o facto de que a propagação subiu literalmente em todas as regiões do país, incluíndo nas regiões autónomas da Madeira e Açores. A exemplificar este movimento, as regiões do Norte e de Lisboa e Vale do Tejo estão também a apresentar os valores mais elevados de propagação desde a semana do 11 de Abril.

Taxa de mortalidade por caso conhecido (CFR)
Fonte: DGS
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Apensar dos valores de propagação serem elevados, estes não são comparáveis aos valores atingidos na Primavera.

Visto que da Primavera para cá foi possível estimar a taxa de mortalidade por infeção (IFR) da doença, a taxa de mortalidade por caso conhecido pode ser usado como indicador da taxa de sucesso na detecção do número de casos. De facto, se olharmos para a variação deste indicador, podemos verificar que atingiu um pico no mês de Maio. Isto significa que grande parte das infecções que provocaram essa mortalidade não foram detectadas, tendo passado despercebidas pelas autoridades de saúde. Este efeito foi especialmente pronunciado na região norte, onde a taxa de fatalidade por infecção conhecida atingiu os 14%. Se compararmos esse valor com a taxa de referência de 0.69%, podemos concluir que apenas 1 em cada 20 casos foram detectados na altura, ou de forma inversa, o norte teve vinte vezes mais casos que o números oficiais da época.

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Felizmente esta conclusão apenas se aplica à região Norte, uma vez que a taxa de fatalidade conhecida nas restantes regiões foi tendencialmente mais reduzida.

Desde então, os valores da taxa de mortalidade por infecção conhecida têm-se reduzido, estando actualmente muito próximos dos 0.69%, o que nos indica que estamos a deixar escapar poucos casos. É por esta razão que os números actuais não são comparáveis com os da primavera, mesmo que os excedam.

É portanto claro, que o aumento dos casos que se têm assistido nas últimas semanas se devem a três factores bastante claros:

  • Aumento da mobilidade da população
  • Aumento do número de testes
  • Eficácia no seguimento dos contactos dos casos conhecidos

Aparentemente, a para acalmar algumas almas mais preocupadas, as escolas em si não têm contribuído para o aumento da transmissão da doença, pelo menos na comunidade escolar. Mas isso será tratado noutro texto.

Fatalidades por 100 000 habitantes por região administrativa.
Fonte: DGS
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Uma coisa que os testes não conseguem evitar é o número de mortes. Por mais que se teste, o número de mortes é uma função directa do número de infectados. E esta é uma realidade difícil para algumas pessoas perceberem. O aumento do contágio entre as populações cuja mortalidade é mais baixa aumenta a probabilidade de contágio das populações mais vulneráveis. Para tornar claro: não é possível proteger os mais velhos, quando o vírus está galopante na comunidade. Isto sem mencionar que o vírus é menos fatal entre os 20 e os 40 anos de idade, mas menos não significa que não o é. Basta relembrar que já faleceram 3 pessoas entre os 30 e os 39 anos.

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Novos casos por 100 000 habitantes nos municípios mais afectados.
Fonte: DGS
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Se a propagação ocorre com maior incidência nas regiões do Norte e Vale do Tejo, só será natural que os municípios destas regiões ocupem o topo da tabela dos mais afectados. E é precisamente isso que acontece, mas seguindo ainda a tendência dos últimos meses: surtos locais muito acentuados e uma propagação constante nas zonas de maior densidade populacional. E isto pode-se verificar caso a caso:

  • Póvoa do Varzim, Amadora, Guimarães e Sintra mantêm uma taxa de propagação que embora tenha diminuído dos meses de férias, sempre esteve presente.
  • Arouca e Vila Verde estão agora a sofrer novos surtos, mas limitados geograficamente.

De notar como os valores da última semana fizeram disparar os indicadores em todos os 30 municípios com maiores números de infecções.

Casos activos por 100 000 habitantes nos municípios mais afectados.
Fonte: DGS
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Se medirmos a perigosidade de um local, pela probabilidade de nos cruzarmos na rua com um infectado com COVID-19, os municípios mais densamente povoados do país estão todos presentes no topo. Com as notáveis excepções de Porto e Gaia, que sendo municípios desmente povoados estão bastante abaixo da tabela.

No topo estão os novos líderes da tabela de novas infecções: Póvoa do Varzim, e Vila do Conde, seguidos pelos “suspeitos do costume”, Amadora e Sintra.

E por agora é tudo. Mantenham as vias respiratórias bem protegidas com uma máscara que confira uma protecção de qualidade sempre que passar em pela porta da rua.

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